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quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Um novo Pernambuco

As notícias publicadas todos os dias não deixam mentir. Pernambuco vive a melhor oportunidade dos últimos 50 anos. São mais de R$ 45 bilhões investidos em projetos estruturadores para alavancar o desenvolvimento do Estado, segundo dados da Agência Condepe Fidem. É diante desse cenário positivo, mas, nem por isso, sem desafios, que o consultor Francisco Cunha analisou as perspectivas para o futuro econômico de Pernambuco, durante o lançamento da Agenda TGI 2011.

Em julho de 2005, as manchetes dos jornais estampavam um investimento de R$ 8 bilhões no Complexo Portuário de Suape, com o anúncio da Refinaria Abreu e Lima e outros poucos projetos. À época, o maior valor colocado na área tinha sido os R$ 1,7 bilhão pertencentes aos cofres do Governo do estado. Hoje, os números são outros. Somente a refinaria demanda cerca de US$ 13,3 bilhões. Com o passar dos anos, outros empreendimentos uniram-se a ela – como a Ferrovia Transnordestina, o Canal do Sertão, Polo Farmacoquímico, Polo Naval, Polo Petroquímico, dentre outros – modificando a realidade econômica do Estado.
“Pernambuco, hoje, vive um novo momento, que se encarado com seriedade pelos setores público e privado, deve dar continuidade aos índices de crescimento e duplicar a economia até 2020, triplicando até 2030”, prevê Francisco Cunha.

A consolidação desses projetos traz para o estado novos rumos e desafios. Aos poucos, novas empresas, de variados segmentos e tamanhos, começam a descobrir o potencial adormecido da economia pernambucana. Juntamente com o estaleiro e a refinaria, empresas de fornecedores de matéria-prima, indústrias de suporte para os setores naval e de óleo e gás, além de condomínios de logística, chegam a Pernambuco, dando início a um segundo boom no crescimento do estado. “Trata-se de um novo ciclo de crescimento que começa a surgir como consequência direta de Suape e deve trazer grandes mudanças para a nossa economia”, explica o consultor da TGI.

Opinião compartilhada pelo diretor de engenharia da construtora Odebrecht – responsável por parte das obras da Refinaria Abreu e Lima, Transnordestina e Reserva do Paiva – José Érico Eloi Dantas. “Suape vai se consolidar como o principal motor da economia pernambucana. Para termos uma ideia do potencial deste crescimento basta lembrar que o Polo Petroquímico da Bahia contribui com 25% do PIB do estado. Os prestadores de serviço e fornecedores serão naturalmente atraídos pelos seus clientes, as indústrias”, afirma.

Um dos maiores exemplos desse movimento é o anúncio feito em meados deste ano pelo Grupo Moura Dubeux sobre os investimentos para a construção do empreendimento Cone Suape. Serão cerca de R$ 1,4 bilhão colocados em empreendimentos logísticos, e um Shopping Center, nas áreas próximas ao porto. A nova empresa espera desenvolver  a área industrial local e atrair mais de 90 empresas durante os próximos cinco anos.

Com índices de crescimento superiores aos do Brasil, Pernambuco se apresenta como a joia do Nordeste. Enquanto a previsão para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil para 2010 está cotada em 7,5%, e o mundial em 4,8%, Pernambuco cresceu 12,8% somente no segundo semestre deste ano. Logo atrás, Ceará (8,8%) e Bahia (10,4%) seguem a tendência. “O cenário para os próximos cinco anos em Pernambuco é bastante positivo. O PIB do estado deve continuar crescendo acima da média nacional”, analisa a economista Tânia Bacelar, da equipe da Ceplan – Consultoria em Planejamento.

Ritmo que pode ser reduzido, caso os gargalos existentes não sejam solucionados. O principal deles, a carência de mão de obra qualificada, é visto como consequência de anos sem colocar a educação como prioridade. “Existe uma herança maldita desse fracasso escolar, mas é clara a mudança da educação na atual gestão”, disse o assessor de gabinete da Secretaria de Educação, Genilson Marinho, em entrevista recente ao Jornal do Commercio, para justificar o fato de que Pernambuco não conseguiu preencher todas as 8.326 vagas oferecidas nos cursos gratuitos do 5º ciclo do Programa de Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo e Gás (Prominp). Segundo a reportagem, quase um terço (28%) das oportunidades deixaram de ser preenchidas porque os candidatos não conseguiram alcançar a nota mínima de dois pontos nas provas de português, matemática e raciocínio lógico.

Outro problema apontado pelo consultor Francisco Cunha está no fato de a nova onda de industrialização do Estado estar baseada em um modelo econômico com forte tendência de queda no cenário mundial: o de petróleo e gás. “Para os próximos 50 anos, essa lógica deve funcionar, alavancando o crescimento. Mas não podemos nos esquecer que o mundo clama por uma mudança de paradigma. Pesquisas de fontes alternativas de energia são prioridade para substituir a matriz energética mundial. Não poderemos ficar apenas assistindo. Atrelamos nosso desenvolvimento ao último vagão da economia do petróleo e gás e temos de observar o futuro das próximas gerações”, diz.

Empresas locais também evoluem

Não são apenas as empresas de fora que movimentam a economia pernambucana. Com forte tradição no setor varejista, Pernambuco evolui a passos largos com o acirramento da concorrência e o aumento do poder de compra da população. A previsão é que as vendas do comércio da RMR crescerão, com a possibilidade de fechar o ano com um resultado recorde, segundo previsão da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de Pernambuco (Fecomércio-PE).

Dados que trazem otimismo para as entidades do setor, segundo o diretor executivo da Câmara de Dirigentes Lojistas do Recife (CDL Recife), Fred Leal. “Todos esses investimentos que chegam ao complexo de Suape acabam desaguando, inevitavelmente, no setor de comércio e serviços. Experimentamos um crescimento acentuado nas vendas, inclusive esperando um Natal 20% melhor do que o do ano passado”.

Para ele, a chegada de novas redes de varejo, atraídas pelo crescimento da classe média, consequência dos programas de transferência de renda e aumento real do salário mínimo, deve obrigar as empresas locais a investirem cada vez mais para se manterem competitivas. “Existem dois lados nessa história. Ao mesmo tempo em que essas empresas vêm para Pernambuco e acirram a concorrência pelo mercado, as marcas locais terão de evoluir para enfrentarem esses novos competidores – o que pode ser muito bom. É preciso investir na qualificação da mão de obra, que já começa a faltar, e em processos de gestão”, alerta Leal.

No que depender dos números divulgados recentemente pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), as micro, pequenas e médias empresas pernambucanas já abriram os olhos para a necessidade de evoluir. Segundo o relatório, a instituição desembolsou R$ 873,6 milhões entre janeiro e outubro deste ano. Um incremento de 141,8% em relação ao mesmo período de 2009. Percentual superior ao anotado para o Nordeste (129,8%), onde as empresas pegaram R$ 4,2 bilhões.

Para o chefe do Departamento Regional Nordeste do BNDES, Paulo Guimarães, se 2009 foi o ano da consolidação dos grandes projetos, 2010 representou uma pulverização do crédito. “São cadeias produtivas derivadas desse desenvolvimento impulsionado por Suape. A indústria representou mais de 50% desses números, caracterizando a transformação de Pernambuco em um estado industrializado, mas não ficou restrita a esse setor. Para 2011, esse movimento deve continuar com um comportamento semelhante, crescendo o número de operações de crédito realizadas”, analisa.

Nem mesmo a disputa cambial que envolve Estados Unidos e China, rebatendo diretamente no Brasil, deve reduzir o otimismo do empresariado local. “Existem muitos desafios para o país durante a gestão de Dilma Rousseff, mas, a menos que exista uma grande crise fiscal, não há nada que possa colocar em risco os R$ 45 bilhões já anunciados, e que têm movimentado a economia local”, diz Francisco Cunha.


É preciso planejar a educação para as próximas gerações

Presidente do Tecon Suape, Sérgio Kano analisa o perfil do futuro econômico que os R$ 45 bilhões em investimentos desenham para Pernambuco, o apagão na oferta de mão de obra, além da concorrência de Pernambuco com o dragão Chinês. E deixa um recado para os empresários locais: “Pernambuco não precisa correr mais que a China, apenas tem de ter em mãos o melhor par de tênis de corrida”.

Algomais|Como o senhor avalia o atual momento da economia pernambucana?

Sérgio Kano|
A economia de Pernambuco atravessa um momento ímpar, onde a convergência dos fatores de desenvolvimento tanto do Brasil como em nosso Estado só têm contribuído para fomentar um crescimento espetacular como se verifica em 2010 e que deverá ter continuidade nos próximos 5 a 10 anos.

AM | O que esperar de Pernambuco para os próximos cinco anos?

SK |
É mais que provável que esse crescimento seja continuado e promova uma demanda muito maior por bens de consumo, mas que também vai requerer uma necessidade de grandes e imediatos investimentos para um aumento importante na infraestrutura geral em toda a geografia de Pernambuco, em especial da cidade de Recife e de toda sua área metropolitana.

AM |E para as próximas gerações?

SK |
Além desses grandes investimentos reclamados pela infraestrutura do estado, há de se realizar um planejamento com dimensionamento estratégico em termos de educação, mas algo muito grande mesmo, pensado e orientado pelo menos para os próximos 20 a 30 anos em Pernambuco, pois há de se recuperar um geração em quem quase não se investiu em sua educação, ao mesmo tempo em que temos de preparar as próximas gerações para serem adequadas às demandas do mercado global e não mais apenas para o início de um novo século, mas para todo o seu transcorrer.

AM |É recorrente que o Estado começa a sentir os efeitos de tantos anos sem altos investimentos em educação. Muitos já falam em apagão da mão de obra. O senhor concorda? O Tecon Suape já sente os efeitos desse apagão?

SK |
Bem,  no setor da educação acho que mais que os investimentos, falta ao Estado um planejamento estratégico consistente e uma rápida execução. Como falei antes, mesmo tardiamente esta ação tem de ser iniciada e já. Temos muita disponibilidade de pessoas, falta educá-los. Temos pressa para formar uma nova geração de pernambucanos que possam atender às demandas do mercado que serão cada vez mais exigentes em termos de qualificação de pessoal, ano a ano, em Pernambuco.

AM | Recentemente, a Philips do Brasil anunciou o fechamento de sua unidade no Recife para ir para a China. Mesmo com Suape a todo vapor, a justificativa foi de que investir na China é melhor, mesmo tendo de transportar os produtos do outro lado do mundo. Como fazer para competir com os Chineses e impedir que mais empresas deixem o Estado?

SK |
Há uns 30 anos atrás, Akio Morita,  grande líder empresarial japonês – da SONY, desde os anos 60/70, quando o Japão passou a ser o maior motor de desenvolvimento da economia mundial daquele momento, foi questionado por um jornalista internacional com uma provocação parecida com a sua, sendo que á época se reportava aos desafios do Japão frente aos Estados Unidos.

O Sr. Morita, na ocasião, comparou a questão citando que dois caçadores estavam numa selva e se depararam com um leão faminto e um deles de imediato tirou os sapatos e começou a calçar um tênis de corrida. O outro caçador perguntou: ‘você acha que com esses sapatos vai conseguir correr mais que o leão?’ A resposta veio num estalo: ‘eu não preciso correr mais que o leão, só preciso correr mais que você’.
Enfim, isso pode resumir agora também a resposta para sua questão. Ou seja, Pernambuco não precisa correr mais que a China, apenas tem de ter em mãos o ‘melhor par de tênis de corrida’, e esse par de tênis tem que ter um pé na perene implantação de infraestrutura e um outro voltado exatamente aos investimentos em educação para que tenhamos nossa mão de obra muito bem preparada. Assim Pernambuco vai poder enfrentar  os grandes leões da concorrência no mercado global. O resto? Bom, o resto Suape e as empresas já fazem.

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